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NU FRONTAL
Se você acha que Caetano Veloso é poeta, Gilberto Gil é filósofo,cano de descarga é incenso e o "brasil" é o país do futuro, este espaço deseja humildemente demonstrar que em país de cego quem tem um olho é Aleijadinho.
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Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008
NINGUÉM QUER SABER DE LITERATURA.
A invenção do livro, próximo de como o conhecemos, data do século XV, quando Gutemberg inventou a impressa. Na verdade o livro vem de bem antes se entendermos as cavernas, pedras, e mais adiante, os papiros e os escritos dos copistas na idade média, parentes próximos deste objeto. Hoje temos a indústria a produzi-los francamente, mas mesmo antes disso o homem sempre teve uma relação forte com a escrita. Tanto assim o é, que até hoje muita gente acha uma população ágrafa, digo ágrafa e não analfabeta, inferior. O que não nos ocorre na maioria das vezes é que a escrita nasceu duma necessidade vulgar do homem primordial de marcar seus objetos, seu transporte para comunicação levou algum tempo.
Atrevo-me a afirmar que temos uma relação ambígua com a escrita, quando queremos atestar a veracidade ou consistência de algum argumento, afirmamos: está escrito, ou assim dizem as escrituras. Agimos como se o papel não aceitasse qualquer coisa que se lhe impõe como verdade. Na atual fase de indústria cultural deparamo-nos com um fenômeno interessante: ninguém quer saber de literatura, mas muita gente, pelo menos entre os que o podem comprar, quer o livro. O livro virou um fetiche da classe média que antes mesmo de alfabetizar-se ou mesmo sem interesse nisso, cultiva volumosas bibliotecas em seus gabinetes particulares. Existe o tipo exibicionista que compra livros a metro, o tipo colecionador que se esfalfa em primeiras edições em péssimo estado pelo qual este paga uma fortuna. Mas uma olhada na lista de best selleres, que meu saudoso amigo Denílson Vasconcelos num de seus belos contos traduziu como Bestas Célebres, nos dá a verdadeira dimensão que ocupa o livro no imaginário do leitor comum. A primeira impressão que se pode colher, é que a diferença entre livro e literatura é tão imperceptível para este, quanto a diferença entre moldura e o quadro é para o míope. Sua ambição é pelo artigo da moda. Este freqüenta uma livraria como quem adentra um shopping. Aliás, como as livrarias estão cada vez mais parecidas como shopping. O leitor comum quer ter livro em casa, talvez para ler. Este não percebe que o livro é uma quinquilharia como outra qualquer. Gente como o bravo Eurico Miranda, para quem ler é uma grande perda de tempo, e nosso atual presidente que comparou a leitura ao extenuante e, segundo o próprio, um tanto tedioso, exercício de andar numa esteira, sabe disso. Mas o consumidor de livros gasta seu dinheiro e tempo juntado coisas que mesmo lendo não estará a ler. Eu mesmo pareço não ser a pessoa mais indicada para criticar tal conduta. Nesta minha curta existência como bloguista usei Drummond para falar de Giselle Bunschën, usei Diogo Mainard para falar mal do excelentíssimo presidente, insultei Caetano, insultei Gil, o que significa que essa gente ocupou mais este espaço que Luis Miguel Nava Ou Herberto Helder. Isso porque ainda não sei se quero ser TV Globo ou TV Cultura. Mas duma coisa estou certo a literatura, conceito que ocupou Sartre e outros, é uma decida aos infernos com o estranho sabor de paraíso. Mais o leitor, ou melhor ledor, não quer saber disso. Não saber e nem quer que "Saber" e "Sabor" tem a mesma etimologia. O ledor quer o que mal sabe e o que lhe sabe mal para a cuca. Quer livros de auto- ajuda, quer o escândalo da última hora fornecido por ex-prostitutas ou ex –amantes de políticos corruptos, mais barato nos jornais e revistas, mas que este insiste em procurar na bela fachada do livro. Acha que portando-o fica com aparência mais culta. Ou quer manuais de felicidade ou diversão ligeira. Diabos ser feliz? Como bem disse Kafka, pode-se ser feliz sem livro. Neste objeto deve se buscar literatura e não felicidade. A lista dos mais vendidos oferece a segunda opção. E neste caso felicidade é mera manipulação da expectativa, tão habilmente usada por Sherazade que, como salienta E.M. Foster, sabia que, para escapar da vindoura sentença de morte imposta por seu marido, só mesmo valendo-se estratégia do suspense, que é a única coisa que funciona com bárbaros. Portanto há de se supor que a esperta heroína de mil e uma noites é uma pervertida inspiração para o mercado literário. Triste, não?
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Sábado, Fevereiro 16, 2008
SEMPRE APRENDO UM POUCO MAIS COM A PEQUENA MORTE
Num tempo de monopólio e manipulação da informação, nada mais saudável que um organismo que propõe a reflexão ao invés da histeria. Se tens como eu uma sensação de deserto n’alma, saiba que uma revista eletrônica de qualidade singular nos visita com a freqüência de um amigo solícito e nos fala sobre literatura. Boa parte dos textos da Revista Pequena Morte deve interessar a muito poucos, mas sem dúvida este tipo de obstáculo é o que ratifica seu espírito desbravador. Vivemos num tempo em que desesperadamente quase todos querem falar a muitos, mesmo sem terem o que dizer, vide os big brothers e os políticos que elegemos. O seu oposto, sinalizado com êxito pela revista Pequena morte, é muito mais que uma bem-vinda lufada de ar. Nela encontramos articulistas ligados ou não à Faculdade de Letras, jovens intelectuais misturados a veteranos no ofício da escrita. Temos entrevistas com escritores, críticos, artistas de alta monta, artistas de verdade, pessoas que produzem o nosso tempo na surdina e não sob os holofotes. Sinto-me profundamente honrado de ter pertencido, ainda que brevemente, à história desta revista. Leio sempre que posso e quando não posso, esforço-me e leio também. Aprendo coisas novas, sou confrontado com novas leituras, percebo que a poesia e a prosa são um caso perdido de amor. Sou levado a pensar Hamlet com a sociedade do espetáculo de Guy Debord, sou tomado por um olhar diferenciado sobre Clarice Lispector ou Adília Lopes, sou apresentado formalmente à gente que nem conhecia. Iria terminar este texto lamentando seu universo diminuto, queria que este veículo fosse o blog da Carolina Dickman ou da Luana Piovani, assim mais gente teria ciência desta importantíssima revista, apropriadamente chamada de Pequena Morte, mas prefiro expor minha felicidade em poder dizer algo sobre este periódico do mundo virtual que tanto me alegra. Saudações à Pequena Morte.
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